Olhar, enxergar, ver: breves notas sobre o Festival Visões do Mar

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Por: Vitor Melo

Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar.

Viajaram para o Sul. 

Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando.

Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto o seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza.

E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai:

– Me ajuda a olhar! 

(A função da arte 1, Eduardo Galeano)

Sendo Niterói uma cidade debruçada sobre o mar, é possível sugerir que grande parte dos seus moradores guarda algum grau de relação com o oceano. Mesmo os que vivem mais distante das praias, sempre tão celebradas, em algum momento com elas se depara, seja nos seus momentos de lazer, seja no seu deslocamento diário – no qual a barca guarda lugar especial como expressão de um município que historicamente forjou uma “experiência guanabarina”, na qual a Baía não foi obstáculo, mas sim caminho, trajeto, trajetória. Não me parece equivocado afirmar que os niteroienses, de alguma maneira, estão sempre a olhar o mar.

​Mas olhar é uma coisa, enxergar é outra. No corre diário, nem sempre paramos para pensar em tudo o que significa o mar, seu valor econômico, sua necessidade vital, a urgência de sua preservação, sua importância também sentimental. Para enxergar é preciso aprender a ver. Visões. E para aprender a ver, há que se desnaturalizar, promover estranhamentos, educar as sensações. O cinema é ferramenta e representação. Visões do Mar, nome plenamente adequado de um festival de cinema promovido em Niterói entre os dias 18 e 23 de novembro, organizado pela incrível turma da Casa Doc, uma das mais incríveis iniciativas culturais da cidade.

​Não pense você naqueles festivais cheios de gente esnobe a desfilar seus metais preciosos em nome de um suposto compromisso com a arte. Nada contra esses, mas o Visões do Mar foi outra coisa. Sem prescindir de uma magnifica organização, o festival foi, ao revés, pluralidade do início ao fim, oportunidade para que os mais diversos setores da sociedade niteroiense pudessem, ao se divertir, aprender e sentir algo sobre o oceano que nos cerca e clama por respeito e ações urgentes.

A própria distribuição das salas nas quais se desenrolou o evento, bem como a seleção do exibido, foi uma expressão de quem entende que seus compromissos políticos não podem se manifestar apenas em discursos, mas devem sim se materializar em práticas coerentes e consequentes. O local e o global. O planeta num grão de areia. Niterói é meu país, mas o mundo é minha casa. Alianças são necessárias para frear a ganância. Formaremos exércitos pacíficos de corações a cultivar a esperança de dias melhores para todos. É preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte.

​Logicamente, a simplicidade e a leveza que acolhem só foram possíveis graças a esse pessoal supimpa da Casa Doc (quem não viu, vá ver, a onda do mar crescer). O carinho de Ellen, Vito, Camica, Maria, notadamente do incansável Pelicano (José Fernandes) e toda a turma, já criam uma ambiência que aponta para o sucesso. É coisa de gente que sabe o que faz, que sabe o que quer e que gosta de compartilhar. Se arte não serve para isso, não passa de ornamento para as agruras sociais. Seria pouco. Arte é para ajudar a ver, para nos impulsionar para além do olhar e enxergar, visões, Visões do Mar.

​Talvez seja possível dizer que a apoteose foi o encerramento. Indescritível aqui não é figura de linguagem. Considere o termo na sua literalidade – impossível descrever. O festival começou na vetusta e linda Sala Nélson Pereira dos Santos, e se encerrou, coerente com a proposta e com a própria história do grupo, na não menos linda Oficina de Pescadores de Piratininga (outro grupo incrível de gente a cultivar o bem). A chuva assustou, mas foi parceira. Parecia ela também abençoar o feito. Poesia pelas frestas é difícil de conter. “Já faz tempo que eu saí de casa para viver no mar”. Eu quase me transbordo de tanta alegria – cinema à beira-mar, embalado pelo som das ondas e pela música do incrível Lira a encerrar o dia, é afrodisíaco. Tesão de gente, tesão de esperança, tesão de futuro. O presente que ilumina e dá força para luta. Germinam sementes de alegria e utopia.

​Vou contar os dias para que chegue o próximo festival. Vida longa ao Visões do Mar! Vida longa à Casa Doc!

Vitor Andrade de Melo - é escritor e professor. Autor de livros com Praia de Itaipu: Histórias de um paraíso errante.

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